Prémio DARDOS
É com muito orgulho que o blogue Cidade Romana de Balsa regista ter sido nomeado com o Prémio DARDOS, pela Confraria da Alfarroba (http://confrariadaalfarroba.blogspot.com/).
Bem-haja a Confraria!
Blog dedicado à memória da antiga cidade romana de Balsa (Luz, Tavira, Portugal)
A ausência actual de dados fiáveis permite apenas expôr uma descrição conjectural da evolução urbanística de Balsa, combinando a história regional com a cronologia dos vestígios estudados, os dados sócio-políticos extraídos da epigrafia, as características urbanas reveladas pela topografia e o paralelismo com cidades mais bem conhecidas.
67 - 31 a. C.
Desconhece-se se o morro do porto já seria ocupado por um povoado turdetano, dependente do Cerro do Cavaco. As condições portuárias e defensivas apontam nesse sentido. A emissão de moedas balsenses na época da "monarquia naval" pompeiana, iniciada após a Guerra dos Piratas de 67 a. C., mostra que o sítio já tinha então sido escolhido pelos romanos, como lugar central dos balsenses.Poderá ter mantido nessa altura uma guarnição romana, enquanto porto estratégico de uma força auxiliar aliada, detentora de poderio naval. Poderá também ter sido um sítio de assentamento de ex-piratas submetidos por Pompeu, tal como se sabe ter acontecido no Mediterrâneo Oriental.
Os vestígios de um fosso, obliterado posteriormente pela plataforma do fórum, indiciam a existência inicial, ou de um fortim militar (castellum), ou de uma acrópole indígena, separada do povoado. As dragagens efectuadas em frente do local parecem ter revelado muros perpendiculares à costa, compatíveis com um porto de canal resguardado por molhes.
31 a. C. a finais do séc. I d. C
Na fase estipendiária da cidade o carácter romano da estrutura urbana seria incipiente. Ter-se-ia um povoado de cume, provavelmente já sem muralhas, prolongando-se pelas encostas a Sul e com a antiga acrópole ou fortim transformado em fórum cívico da comunidade. A fábrica de salga e as termas já existiriam, no arrabalde oriental.A partir de Cláudio e da anexação da Mauritânia em 42 d. C., o crescimento da actividade marítima e o padrão de monumentalização da Época, após o grande sismo então ocorrido, devem ter acelerado o desenvolvimento das estruturas portuárias comerciais e a romanização das estruturas urbanas pré-existentes.
Fim séc. I d. C. e séc. II
O maior crescimento urbano ter-se-á iniciado no reinado de Domiciano (81 a 96 d. C.), como consequência da concessão do direito latino. Será então que a cidade adquire a sua lei municipal e se procede à criação de toda uma cidade nova, traçada em moldes plenamente romanos. Esta deveria congregar a nova comunidade latina, justapondo-a à antiga cidade indígena (peregrina, isto é, não romana). Será um exemplo de dipolis, ou seja, uma cidade dupla formada pela união de duas comunidades.
A grande influência estrangeira notada em Balsa (nomeadamente norte-africana, mas também grega) poderá dever-se, em grande parte, aos “colonos” imigrados nesta conjuntura para usufruírem do direito latino em Balsa. A lei municipal terá regido a divisão cadastral da terra, cujos vestígios são numerosos.
A municipalização latina seria assim levada a cabo segundo moldes coloniais, previamente utilizados na Gália e, posteriormente, em África. Os elementos edificados já identificados devem proceder desta Época, com provável excepção do circo Oriental. O fórum primitivo associa-se à epigrafia cívica conhecida e o novo fórum à única referência epigráfica ao culto imperial. É provável que o primeiro tenha continuado como centro cívico da civitas enquanto que o segundo terá servido de sede às manifestações desse culto, igualmente associado ao teatro, de modo semelhante ao que parece ter sucedido em Italica com o chamado Traianeum.
Datará desta época o sistema de abastecimento urbano de água, com uma represa no local da actual praça da Luz de Tavira. Daqui partiria um aqueduto, cujas marcas topográficas indiciam ter-se dividido em três ou cinco ramais, para os fóruns velho e novo, para as termas e para as duas fábricas de salga. A nascente identifica-se uma plataforma elevada, terminada num paredão semicircular, onde pode ter existido um templo de modelo africano, como os de Thugga (na Tunísia actual), dedicado a Saturno ou a Caelestis.
O lugar de achamento das lápides de doação do pódio do circo é compatível com a sua localização sobre a ilha-barreira então existente.
Séc. IV em diante
O abandono da fábrica de salgas da Torre d'Aires (e de uma casa próxima, transformada em concheiro/ vazadouro) na primeira metade do séc. III e as colunas e capitéis achados tombados permitem estabelecer um paralelo com Baelo, sugerindo que Balsa terá também sofrido com os grandes sismos ocorridos nesta época. É provável que os edifícios monumentais não voltassem a ser reconstruídos e que o porto tenha sofrido graves destruições, assim como o provável circo litoral.Só na 2ª metade do séc. III se reactiva a fábrica de salgas. Nesta altura é já pouco provável que os curiais (notáveis) de Balsa ainda residissem no centro urbano. Este deve ter permanecido como centro fiscal e cívico e o hipódromo do Arroio poderá ser deste período.
O maior desenvolvimento da indústria de conservas e associadas decorrerá nesta fase, multiplicando-se as cetárias por toda a orla ribeirinha, inclusive sobre antigas áreas urbanizadas e portuárias desactivadas.
No séc. IV Balsa deverá ter acompanhado a ruína observada em Gades e Baelo, permanecendo provavelmente apenas como sede de circunscrição fiscal do seu amplo território. A actividade de navegação de longo curso devia então já concentrar-se em Ossonoba. Durante o Baixo Império, ou posteriormente, formou-se a necrópole das Antas, sobre zonas previamente urbanizadas. Pode corresponder a uma fase de renucleação do habitat, pós-urbana, cujos centros mais prováveis seriam as zonas dos antigos fóruns.
Balsa aparece constituída pela justaposição de três partes urbanas, definidas pelos seus sistemas de arruamentos próprios, articuladas entre si por eixos transversais que percorrem toda a extensão da cidade.A parte nascente, constituída pelo planalto da Torre d'Aires e zonas anexas, em que se inclui o porto, tem o seu centro no fórum/acrópole respectivo, junto ao qual se desenha o mais importante nó viário da cidade, origem da vias que se orientam segundo os três destinos dominantes (Ossonoba, Pax Iulia e Baesuris) e o vale d'Asseca.
A parte central, que engloba as Antas, apresenta um programa urbanístico tipicamente romano, descrito no mapa anterior.
O cardo, eixo principal meridiano, estrutura todo o espaço urbano prolongando-se para Norte de modo a formar o eixo de simetria de dois caminhos ou limites, com os quais forma um vértice.
Estes caminhos, de traçado rigoroso que denuncia uma obra topográfica, definem uma coroa urbana que ultrapassa o pomério (limite urbano, que foi aproximadamente reconstituído), incluindo necrópoles e demais áreas e estruturas periféricas. Formariam um provável limite da circunscrição suburbana (ager suburbano, por oposição ao ager rústico exterior), servindo talvez já então de via circular periférica que contornava a cidade pelo Norte.
A parte oriental é marcada pelo relevo do alto da Xareca, cuja escarpa nascente obriga as vias de acesso a contorná-lo pelo Norte, gerando um sistema próprio de orientação do parcelário.
A posição periférica e a malha larga da rede de acessos, assim como a raridade de vestígios topográficos de construções indiciam uma zona de menor densidade urbana, área de concentração provável das domus mais abastadas, localizadas em talhões mais extensos.
Os vestígios fósseis do cadastro rural permitem reconstituir o nó de articulação entre a cidade e o campo centuriado, ponto central donde divergem diversas vias e onde provavelmente o aqueduto principal se dividia em várias condutas.
Marcas de orientação topográficas e arqueológicas permitem delimitar cinco bairros de traçado coerente e reconstituir uma trama de arruamentos e vias de travessia urbana. Uma grande área de arruamentos perpendiculares é notável pelo rigor do seu traçado topográfico, de características hipodâmicas ainda bem patentes em limites actuais.O complexo resultante, apesar de zonas que permanecem obscuras, representa um palimpsesto bastante completo da forma urbana, e constitui uma base rica e sugestiva para propostas de delimitação das zonas urbanas e de faseamento da evolução territorial da cidade.
A nota do mapa indica as medidas encontradas para os quarteirões urbanos, que confirmam a sua origem romana.

À esquerda, detalhe da reconstituição da zona da barragem e represa, de pequenas dimensões, que se destinaria sobretudo a reserva e decantação.
O sítio da barragem foi identificado por uma descontinuidade altimétrica local, sob a actual EN 125, e pela forma característica, que quebra a regularidade da malha do cadastro romano.
Trata-se, além disso, do ponto onde a extrapolação de uma vala fóssil de aqueduto, detectada topograficamente, intersecta a ribeira.
O subsolo da actual praça da Luz revelou ser composto de lamas e aluviões compactados, compatíveis com um antigo fundo alagado. Mostra-se o local da primitiva nascente do Rocio, junto ao entroncamento da via romana e à travessia da ribeira, lugar provável de fontanário ou ninfeu, antepassado remoto da igreja da Luz.
À direita mostra-se o conjunto da bacia de captação, com destaque para a grande charca natural, com cerca de 200 ha, existente até meados do Séc. XIX sobre planissolos impermeáveis. Até ter sido drenada foi responsável pela existência de malária epidémica em toda a zona da Luz de Tavira.

Diversos indícios fundamentam um modelo de abastecimento de água corrente à área urbana.
Uma grande bacia natural a Norte, numa zona de solos impermeáveis, captava água, ligada a uma pequena albufeira de decantação represada por uma barragem, situadas no lugar da actual praça da Luz de Tavira.
A água era então transportada por um aqueduto, que se dividia em vários ramais (aparentemente de 3 a 5). Estes abasteciam directamente os principais pontos de consumo (termas, fábricas de salga, porto, etc.), sendo as restantes zonas abastecidas a partir de centros de depósito e distribuição, situados no topo das encostas.
Nesta fase final da rede, a água circulava em canos cerâmicos e de chumbo.
A parte hipodâmica da cidade (com arruamentos perpendiculares entre si) possuía uma rede de esgotos subterrânea, que acompanhava provavelmente o traçado das ruas.
Existiam ainda duas nascentes importantes, podendo ter havido outras. Uma delas, no flanco da acrópole da Torre d'Aires, destinar-se-ia à aguada portuária, sendo provavelmente uma das principais fontes de abastecimento do povoado primitivo, antes da construção do sistema canalizado.

Indicam-se os sítios aproximados do achamento de muros submersos c e das lápides do circo b. Mostra-se a localização do porto exterior PX e interior PI, separados pelo molhe artificial.
A ilha-barreira é reconstituída conjecturalmente sobre os bancos de sapal que dividem os dois canais da ria. Era a sua localização em 1634, quando Pedro Texeira desenhou a barra de Tavira, desaparecendo muito provavelmente com o tsunami de 1755 para se reconstituir posteriormente na posição actual, mais distante de terra.
Mostra-se a reconstituição da linha de costa antiga e das áreas antigamente alagadas ou submersas.A posição da barra antiga é conjectural, não devendo estar porém muito longe da posição indicada, justificando-se assim a construção do referido molhe.
A combinação de marcas fotogramétricas, da forma do terreno e do tipo de espólios arqueológicos levaram à identificação de 16 estruturas urbanas, na sua maioria desconhecidas até agora. Algumas permitem contextualizar no espaço urbano sítios arqueológicos que permaneciam funcionalmente indefinidos.- Destaca-se a identificação de dois fóruns, definidos pelas suas esplanadas T9 e T10,
- contendo uma delas o teatro T5.
- Identifica-se também o circo T8,
- uma base de importante edifício T11 (talvez um templo),
- um molhe portuário T6,
- o porto interior T7,
- parte de uma via decúmana T12,
- um bairro T13,
- uma villa suburbana T4
- prováveis monumentos de águas T14,
- praça T3,
- complexo circular T2
- e anfiteatro T1.
- T15 e T16 são necrópoles também localizadas arqueologicamente, cujos limites de exploração foi possível definir mais precisamente.

O estudo do terreno permitiu reconstituir transformações artificiais atribuídas à Época Romana e propor hipóteses fundamentadas sobre a linha de costa antiga e a localização do porto e da barra.
A caracterização das marcas mais antigas foi feita após identificação e eliminação das mais recentes, provocadas por trabalhos agrícolas e pela acção da erosão e de aluimentos das falésias.
Marcas fósseis mostram plataformas semi-artificiais, taludes, muros de suporte, fossos e condutas de água antigas. Fornecem igualmente elementos rigorosos sobre a regressão do nível do mar (que terá baixado um pouco menos de 1 m desde então) e sobre a colmatação de antigos esteiros marinhos (que alcançavam zonas hoje com cotas de 4-5 m). Estes valores são compatíveis com outros recolhidos em vários pontos do Algarve e da costa da província de Huelva.
A linha de costa foi restituída localmente a partir de uma extensa linha de taludes com sinais de acção marinha. Ela foi calibrada por vestígios remanescentes de cetárias, situadas abaixo do nível do cais, e pelo nível do mosaico na base da escarpa da Xareca. Este pertenceria provavelmente a um cais porticado, junto à escadaria que o ligava à plataforma superior.
